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A “força de resposta do lugar” (tributo a Milton Santos)

junho 23, 2010

Francisco de Goya - El Coloso, 1808 - Museu do Prado, Madri

Milton Santos (1926-2001) foi professor emérito de Geografia Humana da Universidade de São Paulo. Com mais de 30 livros publicados, este geógrafo brasileiro tornou-se referência obrigatória para estudiosos do espaço no mundo inteiro. Tendo lecionado em diversas universidades da Europa, África, América do Norte, Central e do Sul, sua trajetória foi marcada pelo reconhecimento nacional e internacional de seu trabalho intelectual. Além do distintivo Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Toulose (1980), da Universidade de Buenos Aires (1992), da Universidade Complutuense de Madri (1994) e da Universidade de Barcelona (1996), bem como de diversas universidades brasileiras.

Ao revisitar a obra de Milton Santos o presente artigo (publicado originalmente na Revista Em Questão, 2003)  pretende homenagear este genial pensador do espaço que, através de suas contribuições inovadoras e transdisciplinares, revelou-nos uma geografia nova. Talvez fosse melhor dizer uma metageografia, dotada de um sistema descritivo-interpretativo capaz de engajar/explicar os processos espaciais em curso no período atual, marcado pela globalização financeira e tecnológica do capitalismo.

A noção de sociedade global é, para Milton Santos, uma noção abstrata que só adquire concretude na escala local. Para o homem comum, o mundo concreto, imediato, é a cidade. Desta forma, é através do binômio local-global que se pode tentar compreender o fenômeno da globalização.

Ao mesmo tempo em que se instala o “sistema-mundo”, verifica-se a formação de um meio técnico-científico-informacional. Trata-se da unificação dos sistemas de objetos em um único sistema de objetos que, pela primeira vez na história, tende a ser o mesmo em todos os lugares. Os objetos técnicos são criados para obedecer a uma lógica estranha aos lugares onde estão instalados. O comando passa a ser exercido à distância, pelos atores hegemônicos.

O desenvolvimento tecnológico informacional permitiu, assim, acelerar o processo de substituição dos fluxos de matéria por fluxos de informação, responsáveis pelas novas hierarquias e polarizações da dinâmica urbana e pela informacionalização do espaço. Os fluxos de informação são postos em funcionamento por intermédio de redes que se entrelaçam e se distribuem de maneira desigual pelo território. Somente os atores hegemônicos são capazes de acionar todas as redes e utilizar todo o território. Fluxos rápidos caracterizam as ações de comando, exercidas pelos atores hegemônicos, em contraposição aos fluxos lentos dos atores hegemonizados.

Para Milton Santos as novas redes, instrumentos de racionalidade e de entropia, configuram a segmentação atual do espaço em dois grandes vetores espaciais: as horizontalidades e as verticalidades. As horizontalidades consistem nos espaços justapostos, formados por pontos que se agregam sem descontinuidade, presentes na forma da cidade. As verticalidades conectam pontos distantes, separados uns dos outros no espaço (expressos no sistema urbano), e que asseguram o funcionamento global da sociedade e da economia.

As redes técnicas, assim constituídas, devem prover fluidez ao sistema como um todo. De acordo com o nosso autor, não é mais a produção que preside à circulação, mas é esta que conforma a produção. Eliminar todos os obstáculos à livre circulação de mercadorias, das informações e do dinheiro passa a ser o objetivo principal das forças hegemônicas em disputa pelo espaço.

A luta pela apropriação do espaço-tempo assume o centro da cena, confrontando ricos e pobres, dominantes e dominados. De um lado, a produção do espaço como valor de troca e, de outro, a produção do espaço como valor de uso. No primeiro caso, “o reino da necessidade”: a ordem distante informacional, os fluxos acelerados, as verticalidades, a separação, a segregação; no segundo caso, “o reino da liberdade”: a ordem próxima comunicacional, a lentidão, as horizontalidades, a co-presença, o acontecer solidário. Oposições dialéticas, cuja superação se processará no e pelo espaço social urbano.

O ambiente construído das cidades se opõe à lógica dos fluxos rápidos. Os objetos pré-existentes, envelhecidos e tecnicamente menos evoluídos não são funcionais aos modos de operação e comando dos atores hegemônicos. Essa “defasagem”, cristalizada na forma urbana através de processos históricos complexos, permite a Milton Santos identificar no espaço urbano a emergência de áreas opacas, representadas pelos espaços da lentidão onde vivem os pobres, em contraposição às áreas luminosas, espaços racionalizados e racionalizadores, espaços da fluidez e da competitividade, ajustados aos propósitos mais perversos da globalização. As áreas opacas constituiriam então os espaços do aproximativo e da criatividade, capazes de resistir ao totalitarismo da racionalidade hegemônica. Somente nessas áreas, onde a diversidade socioespacial é ampliada e enriquecida pela presença dos pobres, poderão emergir novas formas de solidariedade, fundadas nos tempos lentos da metrópole.

A partir deste entendimento do espaço, Milton Santos reencontra nas cidades, sobretudo nas grandes metrópoles, assoladas pela globalização financeira e tecnológica dos dias atuais, fragmentadas pela verticalidade dos fluxos hegemônicos e submetidas à perversidade dos processos de exclusão social, a força de resposta do lugar. A resposta contra-hegemônica vem exatamente daqueles que, tudo perdendo, mantiveram-se ligados a uma sociabilidade eminentemente urbana, inscrita nos interstícios territoriais da própria exclusão, comandada (de fora para dentro) por uma ordem distante. Nestas “áreas de sombra”, resultantes de sucessivos arranjos espaciais sobre o território (sejam as velhas carcaças herdadas de um passado distante, sejam os conjuntos precariamente edificados das periferias e favelas), protegidas por suas próprias fraquezas e pela incapacidade de adaptação frente aos imperativos econômicos e tecnológicos da globalização, pôde ser forjada uma outra lógica. Contribuem para isso, segundo o autor, as relações de proximidade, contigüidade e reciprocidade, como vetores de produção permanente de redes de solidariedade e de interação comunicativa entre os participantes.

A intensificação dos conteúdos comunicacionais produzida nos guetos urbanos favoreceria, assim, o fortalecimento da visão crítica de um cotidiano repetitivo e indesejável (no qual prevalece a exploração e a escassez), e a afirmação de uma cultura popular (articulando o universal e o particular) em contraposição à cultura de massas. Ainda de acordo com Milton Santos, a diversidade socioespacial produzida pela urbanização acelerada das últimas décadas e potencializada pela utilização das tecnologias da informação atualmente disponíveis, adquire um conteúdo explosivo, apontando para a reemergência das massas populares e o surgimento de um novo período histórico.

De trincheiras de resistência, os guetos urbanos passam à condição de atores sociais, interpelando e desvelando, cotidianamente, o alcance real dos objetivos de uma racionalidade totalitária e excludente, cuja eficácia sistêmica não pode ali se realizar plenamente. Em meio à ideologia do consumo, os pobres descobrem a escassez e dela tomam consciência. A força, diz Milton Santos, está, paradoxalmente, com os homens lentos. E a sua lentidão deriva da resistência oferecida pelas estruturas materiais sedimentadas pelo tempo na cidade, associadas às formas de apropriação mediadas pela corporeidade dos sujeitos. Assim, os lugares, funcionando como intermediários entre o mundo e o indivíduo, assumem uma posição central na história.

Estamos diante da redescoberta (ou reafirmação) da dimensão espacial do cotidiano e da possibilidade de reapropriação do valor de uso do espaço (e do tempo). Será, portanto, a partir do mundo popular, através de seus vínculos profundos e cotidianos com o espaço-corpo, solidificados na luta pela sobrevivência, que se constituirão as contrafinalidades, destinadas a recompor o sentido e as normas de utilização de objetos e técnicas, segundo os interesses da vida local.

Sugestões de títulos, da vasta obra de Milton Santos, para leitura:

Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo: Hucitec, 1994.
A natureza do espaço: espaço e tempo: razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1999.
Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
“O papel ativo da Geografia. Um manifesto”, in: Revista Território, Rio de Janeiro, ano V, pp. 103-9, jul./dez., 2000.

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