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Reinvenção da cidade

maio 28, 2015

mineira 2015 cópia

No Rio de Janeiro as favelas acumulam mais de um século de existência. Expostas a intempéries, sobrevivendo a desmoronamentos, incêndios, ‘balas perdidas’, ao preconceito, à segregação socioespacial, resistiram ainda a inúmeras tentativas de remoção pela força dos tratores e dos cassetetes. Não obstante tantas ameaças, as favelas cresceram e se fortaleceram, incorporando-se de modo irreversível à paisagem cultural carioca.

Como puderam, diante de tantas adversidades, perdurar por tanto tempo, multiplicando-se pelo território, com tanta vitalidade?

Mesmo sem a pretensão de elucidar tal enigma, acredito que o processo de produção das favelas, patrocinado pelos excluídos sob a forma de espaços intersticiais de resistência e sobrevivência, ensejou a criação de uma estratégia defensiva frente à modernização e tecnicização do ambiente urbano.

As frequentes comparações entre as malhas viárias da cidade e da favela costumam acentuar a baixa acessibilidade da última, sobretudo em áreas de topografia acidentada. É certo que a precariedade da pavimentação, assim como a improvisação na solução dos acessos mais íngremes, contribuem para reduzir a sua eficiência. Contudo, se tivermos em conta o corpo humano como instrumento de mediação dos espaços, a acessibilidade intrínseca do traçado urbano da favela pode revelar-se bastante satisfatória, com espaços públicos construídos para as pessoas e não para carros. Tal distinção aparece tacitamente na conhecida oposição entre ‘favela’ e ‘asfalto’. Ao identificar a cidade com o asfalto, admitimos que suas ruas largas e bem pavimentadas destinam-se preponderantemente aos automóveis. Congestionamentos, poluição ambiental, atropelamentos e colisões tornaram-se fatos corriqueiros, incorporados ao cenário ‘progressista’ da cidade do asfalto.

A acessibilidade das favelas deve, portanto, ser analisada frente à generosa oferta de espaços adequados e seguros para as práticas socioespaciais cotidianas. Uma espécie de ‘inteligência corporal coletiva’, que se traduz em competência urbanística pela racionalização dos recursos disponíveis, preside a interligação das vias na favela. As articulações entre ruas, moradias e quadras criam uma ‘sintaxe espacial’ perfeitamente legível, responsável pela estruturação do seu tecido urbano.

A solução para as favelas não está fora delas, mas no reconhecimento de que representam a ‘reinvenção’ da própria cidade, entendida como o lugar do encontro e da troca entre os diferentes. Uma cidade renascente, rejuvenescida e, incontestavelmente, alegre. Construída como resposta aos processos de exclusão social e segregação espacial, mas também como uma forma alternativa e clarividente de autoproteção com relação aos rumos da grande cidade à sua volta. Reflexo de uma sociedade desigual, a sociodiversidade presente nas favelas figura hoje como parte fundamental da solução para os problemas enfrentados pela cidade como um todo.