Posts Tagged ‘devaneio das águas’

Belém, cidade das águas grandes

setembro 25, 2010

“Antes de ser um espetáculo consciente,

toda paisagem é uma experiência onírica”.

Gaston Bachelard
in: A água e os sonhos

Chuva (foto: Dirceu Maués)

1. Decifra-me enquanto te devoro…

Nada é simples quando se trata de falar da Amazônia. Seja qual for o tema ou aspecto a ser abordado, será preciso, antes de qualquer coisa, aceitar o fato de que estamos lidando com uma escala muito particular. Uma escala que nos faz pequenos diante de tudo que vemos; uma escala colossal, sobre-humana (a começar pelo tamanho dos insetos). Essa será a primeira e a mais fundamental das descobertas.
Depois vem o vigor deste impulso vital que faz tudo brotar e rebrotar o tempo todo; o verde profundo das folhagens; a exuberância da floresta com suas árvores gigantescas; a branca intensidade da luz equatorial que a tudo devassa e escalda; e, por fim, mas não por último, a imensidão das águas grandes…
A água está em toda parte: elemento primordial e matéria-prima de todas as possibilidades de existência. Na Amazônia, no entanto, essa onipresença assume uma visibilidade absurda, quase irreal, que nos transmuta em seres aquáticos. É ela, e sempre ela, que comanda a cena. Seja na forma do “rio-estrada” que rasga a floresta, serpenteando por dezenas, às vezes, centenas de quilômetros, seja na forma do “rio-mar” que se alarga até a linha do horizonte, distanciando e ocultando a outra margem, ou, ainda, na forma da chuva tropical que desaba, impiedosa, sobre nossas cabeças.
Difícil evitar essa “pororoca” de adjetivos quando, mesmo os sentidos da percepção parecem insuficientemente dotados para dar conta da força extraordinária dos acontecimentos que se sucedem à nossa volta. Por isso, somente depois de constatar e reconhecer os nossos limites é que estaremos minimamente preparados para seguir em frente. Aí então poderemos, com tranqüilidade e aceitação, nos render aos seus mistérios e encantamentos. Diferentemente do enigma proposto pela antiga esfinge, na Amazônia, se deixar devorar é condição indispensável à decifração.
As linhas que se seguem discorrem sobre a experiência vivida por um “estrangeiro” numa cidade amazônica. A cidade em questão é Belém do Pará e “estrangeiro” é como, em geral, os amazônidas denominam, coloquialmente, todos que vêm de fora, não importando aqui, se o estrangeiro vem de dentro ou de fora do Brasil. Não se trata exatamente de uma atitude xenófoba, mas da constatação velada de que a Amazônia é mesmo um “outro lugar”, longínquo e estranho. Quanto a mim, contudo, prefiro pensar que se trata apenas de um viajante numa cidade que generosamente o acolheu (e enfeitiçou!), tentando, de espanto em espanto, ir decifrando aquilo mesmo que o devora.

2- Paisagem líquida

Doca do Ver-o-Peso (foto: Dirceu Maués)

“A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas

que ultrapassam as percepções fisiológicas do homem”.

Mário de Andrade
in: O turista aprendiz

Belém do Pará ou, para fazer jus às suas origens históricas, Santa Maria de Belém do Grão-Pará, nasceu à beira não de um rio, mas de um complexo hídrico, formado pelo entrelaçamento de muitos rios e baías.
Afastada cerca de 100 km da costa atlântica, a cidade pronuncia-se com a forma de um cotovelo entre o rio Guamá e a baía do Guajará. Mas isso ainda não é tudo. Contornando Belém, o rio Guamá encontra o rio Acará e, ambos desembocam na baía do Guajará. A baía do Guajará, por sua vez, se junta, amistosa e tranqüilamente, à baía do Marajó, situada ao norte de Belém e a sudeste do arquipélago do Marajó. Além dos, já mencionados, rio Guamá e rio Acará, a baía do Marajó recebe também (e principalmente), a importante contribuição das águas do rio Pará, fartamente alimentado por um braço secundário do rio Amazonas (que vem do norte, através do Estreito de Breves) e pelo rio Tocantins (que vem do sul). É água que não acaba mais. E todo esse dulcíssimo aguaceiro, pouco antes de inundar o Oceano Atlântico e misturar-se com as águas salgadas, compõe de modo espetacular a paisagem líquida que emoldura Belém.
A bacia hidrográfica amazônica, a mais vasta do planeta, constitui uma rede excepcional de vias comunicantes e hierarquizadas, tendo como calha principal de escoamento o rio Amazonas. Desse modo, a localização de Belém representa, desde a sua fundação no início do século XVII, um ato de clarividência geopolítica: o controle sobre a foz e o curso do Rio Amazonas significou imediatamente a posse virtual de todo o território setentrional da colônia.
Sua ligação com o mar propiciava uma interface direta entre o núcleo urbano e a Metrópole portuguesa; a ligação com o rio propiciava a interface com o interior, dilatando seu raio de influência sobre o território conquistado. A mobilidade franqueada pelo duplo acesso às vias naturais de circulação, fluvial e marítima, aumentava significativamente a eficiência dos sistemas defensivo e econômico, revelando uma sofisticada estratégia de planejamento do espaço a serviço dos propósitos da colonização. Belém surge, assim, como elo estratégico de ligação entre o rio e o mar. Esse será, sem dúvida, seu atributo vital e razão de ser de sua própria existência.
Sobre um promontório, descortinando a vista da baía do Guajará, construiu-se, a 6 de janeiro de 1616, o Forte do Presépio, marco de fundação da cidade. A um tempo circunscrevendo e confinando a cidade, suas paredes fortificadas permitiram os primeiros contatos entre as populações indígenas e os conquistadores europeus, e em decorrência, o reconhecimento mais apurado da própria região. No momento seguinte, ao ultrapassar suas fronteiras iniciais, a cidade terá no Forte o ponto focal da ordenação geométrica do seu traçado e, na “sombra” de sua vizinhança imediata, a proteção e segurança necessárias à conformação de seu primeiro núcleo urbano.
As feições da cidade colonial se consolidam no século XVIII, sob a administração do Marquês de Pombal, primeiro-ministro do rei D. José I, de Portugal. As igrejas mudam sua modesta roupagem de taipa-de-mão, sendo reconstruídas em pedra e cal. Erguem-se sobrados e edifícios públicos. A arquitetura oficial e religiosa assume proporções clássicas e escala monumental, destacando-se do casario residencial . Entre os prédios mais significativos do setecentos e ainda existentes na Belém de hoje, incluem-se o Palácio dos Governadores (construído em 1772), as igrejas do Carmo, Santana, Mercês e Rosário, a Capela de São João Batista e o conjunto da Praça da Sé, formado pelo Forte do Presépio (também reformado no séc. XVIII), a Igreja de Santo Alexandre e o Arcebispado (antigo Colégio dos Jesuítas, hoje transformado em Museu de Arte Sacra), a Casa das Onze Janelas (antigo Hospital Militar, hoje transformado em Museu de Arte Contemporânea) e a Igreja da Sé.
Com o ciclo econômico da borracha, a partir da segunda metade do século XIX, a antiga cidade colonial portuguesa adquire ares de cidade cosmopolita. A euforia dos novos tempos, decorrente do progresso industrial em marcha na Europa e Estados Unidos, exerceu grande influência na cidade, especialmente sobre a emergente burguesia da borracha. Os ideais de conforto e saneamento urbano, financiados pelo saldo comercial favorável, deram origem a importantes melhoramentos urbanos e à reformulação da paisagem arquitetônica, em estrita observância ao novo receituário estilístico do Ecletismo. Inaugura-se a Estrada de Ferro Belém-Bragança (1884). Constroem-se chalés, palacetes e edifícios suntuosos. Entre as novas edificações, destacam-se o Grande Hotel e o Teatro da Paz (1878), destinados a receber as mais famosas companhias de ópera da Europa. Inaugura-se o Mercado de Peixe (1901), junto à Doca do Ver-o-Peso, onde ainda hoje ancoram os barcos vindos do interior .
Desta mescla entre a “Lisboa dos trópicos” (da segunda metade do século XVIII) e a “Paris na América” (da virada do século XIX para o XX), resultarão os traços mais característicos da paisagem arquitetônica da Belém contemporânea.
Ao contrário dos centros históricos de outras cidades brasileiras, em que reconhecemos conjuntos urbanísticos predominantemente datados de um mesmo período , o Centro Histórico de Belém apresenta um acervo edificado bastante diversificado que reúne muitos tempos na forma da cidade. Contudo, não obstante as alterações na forma urbana e o aparecimento de novas funções, as ligações entre cidade-porto-rio-mar, permaneceram e se consolidaram no processo de constituição temporal diacrônica da imagem da cidade.
Significa dizer que a paisagem urbana de Belém apresenta uma unidade estética empiricamente reconhecível, que se constitui em meio à diversidade. Temos, assim, a paisagem natural, decisivamente marcada pela presença abundante das águas, pela extraordinária luminosidade equatorial, pela exuberância da vegetação amazônica, juntamente com a paisagem arquitetônica e humana, reunidas numa única idéia (imagem) de cidade.
Engana-se, porém, quem pretende enxergar água e cidade como coisas diferentes, separadas uma da outra pela margem do rio. Um olhar mal acostumado com a secura de outras paisagens ou, talvez, o próprio olhar do arquiteto, adestrado pelo estudo das formas rígidas, talhadas a cinzel, incorre muito facilmente no equívoco de desidratar a natureza úmida da cidade de Belém.
Mais do que emoldurar ou circunscrever a cidade, as águas grandes misturam-se com ela a ponto de não se poder mais distinguir com segurança o que é água e o que é cidade. Será, portanto, a partir desse estado de permanente transição, que entrelaça, simultaneamente, processos de cristalização da água e dissolução da pedra, que se pretenderá aqui uma tentativa de decifração poética da forma da cidade de Belém.

3- A cidade submersa

Baía do Guajará (foto: Dirceu Maués)

Visitando a cidade em julho de 1927, Mário de Andrade nos apresenta uma descrição, tão poética quanto precisa, da paisagem mutante de Belém:

“O céu está branco e reflete numa água totalmente branca, um branco feroz, desesperante, luminosíssimo, absurdo, que penetra pelos olhos, pelas narinas, poros, não se resiste, sinto que vou morrer, misericórdia! O melhor é ficar imóvel, nem falar. E a gente vai vivendo de uma outra vida, uma vida metálica, dura, sem entranhas. Não existo. Até que capto no ar uma esperança de brisa, é brisa sim. O céu branco se escurenta em cinzas pesados de nuvens. Em cinco minutos o céu está completamente cinzento escuro e venta forte um vento agradável nascido das água fundas.”

Duas estações se sucedem anualmente no Pará: a que chove todo dia e a que chove o dia todo. Não se trata de um mero jogo de palavras, mas da tradução literal do regime das águas que evaporam e se precipitam sobre a cidade. A primeira transcorre entre junho e novembro, e é associada ao verão; a segunda, correspondente ao inverno, vai de dezembro a maio. No inverno, assim chamado por apresentar dias menos quentes e céu quase sempre nublado, a chuva é miúda e demora mais a passar. No verão, os dias são sempre escaldantes e as águas da chuva desabam uma de uma só vez sobre a cidade, concentradas em períodos de curta duração.
Ao contrário do que se verifica no Rio de Janeiro, um dia de chuva não é nunca para os belenenses um “dia feio”. Não se tem aqui, o hábito carioca de maldizer os dias nublados. A chuva em Belém é um acontecimento corriqueiro e, irremediavelmente, presente na vida de todos os dias. O banho de chuva, aliás, continua sendo, nas tardes quentes de Belém, uma prática freqüente e muito apreciada pelas crianças.
Para o viajante desavisado, no entanto, faz-se necessário um paciente aprendizado até que ele venha a entender como as coisas se passam e passe, também ele, a desejar sua benfazeja quota diária de umidade.
No verão os dias amanhecem invariavelmente luminosos e quentes, transcorrendo como se nada mais, para além daquela luz intensamente branca, pudesse cair do céu. Em geral, pelo início da tarde, de uma hora para a outra, tudo se transforma. Um vento inesperado precede a mudança dos humores celestes. Nuvens carregadas se acumulam em fração de segundos. Começam os primeiros pingos. São pingos esparsos, mas grossos e velozes. Caem, certamente, de grande altura. Batem na pele com força, estatelam-se no chão, ruidosos. É o sinal para que todos os transeuntes se abriguem o mais rapidamente possível. Na seqüência, despencará o aguaceiro. Já não há nada que se possa fazer, a não ser se abrigar. Mesmo os guarda-chuvas são inócuos diante de tanta água. Aliás, em Belém não se costuma usar guarda-chuvas, mas apenas sombrinhas para se proteger da inclemência do sol.
A população, tranqüilamente abrigada debaixo das marquises e, até, debaixo das frondosas (e espessas) copas das mangueiras, se prepara para receber do céu mais uma, das muitas chuvas que já caíram e que ainda cairão sobre Belém.
E, assim, um rio caudaloso desaba sobre a cidade. A partir daí, assiste-se a uma completa transformação na paisagem local. A chuva de verão constitui, em Belém, um espetáculo da Natureza, contracenado teatralmente pela cidade.
A cidade pára. Os carros param. O tempo pára. Ou, por outra, um tempo novo se instala, cancelando qualquer tipo de pressa. Todos os compromissos do dia encontram-se agora automaticamente adiados para depois da chuva. Ninguém pode nada contra a força daquela manifestação “trópico-amazônida-torrencial” encarnada na cidade.
A aproximação das pessoas, forçada pelas circunstâncias, enseja conversas casuais debaixo das marquises das lojas. Comenta-se a chuva, contam-se casos, fala-se sobre a vida, sonha-se de olhos abertos, enquanto se assiste a cidade ser impiedosamente lavada. Há que se esperar, naquele intervalo em que os relógios deixam de controlar os tempos dos afazeres cotidianos, que a chuvarada cesse e o céu se abra outra vez. Em geral, a chuva de verão não dura mais que dez ou quinze minutos.
De repente, um facho de luz irrompe por detrás do aguaceiro. A chuva ainda não acabou, mas o sinal luminoso é o anúncio de que o sol não tardará a brilhar outra vez. Com a mesma rapidez que tudo começou, a chuva desaparece.
A cidade se recupera rapidamente. As pessoas vão deixando as marquises e seguem seu caminho. Debaixo das copas das árvores, onde até a pouco havia gente bem abrigada, começam pingos retardatários da chuva que passou. O céu já se abriu completamente, só as árvores continuam, por mais algum tempo, chovendo.
Nas platibandas dos sobrados, nas cumeeiras dos telhados, ou empoleirados nos postes, os urubus se expõem ao sol, abrindo as asas e eriçando suas penas, para acelerar o processo de secagem.
Com uma topografia extremamente plana, a cidade resiste excepcionalmente bem às chuvas de verão. Vista do avião, Belém parece boiar sobre um tapete estendido ao nível do mar (ou do rio). Durante a chuvarada as ruas alagam, os bueiros transbordam, mas em pouquíssimo tempo a água escoa e já se pode andar pelas ruas sem maiores problemas. Com a alma e o corpo lavados, Belém retoma, outra vez apressada, o ritmo comum à vida de uma grande cidade.
As exceções ficam só por conta dos períodos em que chuva coincide com a maré alta, em geral no mês de maio, quando se verificam alguns transtornos mais significativos na cidade, decorrente do retardo no escoamento das águas pluviais. Acrescente-se, ainda, que nos últimos anos, algumas mangueiras centenárias (que fizeram Belém ficar conhecida como “a cidade das mangueiras”) não têm resistido com o mesmo vigor de outrora à ação das chuvas.

4- Pedra mole em água dura, tanto bate até que sonha…

Mercado (foto: Dirceu Maués)

“Contemplar a água é escoar-se, é dissolver-se, é morrer.”

Gaston Bachelard
in: A água e os sonhos

Descrevendo a vida da cidade por volta de 1922, quando ainda o trem de ferro percorria as suas ruas, o escritor Dalcídio Jurandir diz:

“As chuvas desabaram, desmanchava-se a cidade no aguaceiro (…) Varando o aguaceiro, o trem passava, ruidoso e fumegante submarino (…) E rompendo o chuvaral, revezavam-se os apitos da Usina e do Utinga, os toques do quartel, muito distantes, como se marcassem um tempo extinto ou pedindo socorro na cidade que naufragava (…) A cidade boiava na luz da manhã. Depois daquela semana d’água, as pessoas, os animais, os trens passavam como se voltassem do fundo. Uma mulher passou, meio esverdeada: do limo da enchente? As samaumeiras de Nazaré traziam um ar do dilúvio”.

Assistir Belém debaixo da chuva é testemunhar a cena mítica de uma cidade náufraga, que sucumbe, desmanchando-se diante dos nossos olhos.
Até o tempo se encolhe e se aquieta para assistir o espetáculo da chuva. Tal como o tempo sagrado, o tempo da chuva representa uma ruptura com relação ao tempo profano. Não há propriamente um fluir do tempo, mas a sua reintegração num mesmo e eterno presente mítico primordial. Um “tempo extinto” que é, a cada chuva, revivido pela cidade. A repetição cíclica e ritualizada da chuva instaura na cidade um tempo circular e reversível, indefinidamente recuperável.
Não seria, aliás, a palavra temporal, em sua conotação semântica de chuva forte, também uma alusão ao fato de que a chuva tem um tempo próprio de duração? (Um tempo que não se confunde com o tempo cotidiano; um período de duração compreendido entre o início e o fim da chuva, cuja nitidez, em contraposição às demais temporalidades do cotidiano, é tão mais pronunciada quanto mais forte é a chuva).
De qualquer modo, e isso é o que importa dizer, a chuva envolve e engaja a tudo e a todos na sua mágica duração intemporal. Diante do olhar incrédulo do viajante, a população, já devidamente abrigada, contempla impassível o espetáculo que se desenrola na cidade. Não há um escasso traço de medo ou dúvida nos olhos daquela multidão, agora voltados para o céu. Há, isto sim, uma espécie de religiosidade primitiva que faz da chuva não uma ameaça, mas uma benção. A suposta impressão de impotência da cidade se desfaz, dando lugar a uma respeitosa resignação diante da presença daquela força sobre-humana. Neste transe místico-vegetal, que é também espera e aceitação, os habitantes de Belém “sabem” que nada de mal pode lhes acontecer. E, como que “possuída” por uma entidade divina que desce sobre a cidade, Belém se entrega aos desígnios chuvosos da natureza.
O céu vira um rio de águas pesadas e o rio espelha o céu com suas negras e densas nuvens. Um véu espesso cobre a cidade. Cidade, rio e céu já não se distinguem mais. Enxerga-se pouco e, no entanto, há muito que se ver. Os contornos perdem definição, ao mesmo tempo em que as formas ganham inusitada mobilidade. Movem-se, serpenteiam, revelando a metamorfose de uma paisagem liquefeita.
Durante a chuvarada, que mobiliza tempo e espaço, o movimento da cidade é inteiramente comandado pela força das águas. Sem sair do lugar, casas e pessoas são “arrastadas” pela correnteza onírica que se desprende do fluxo da matéria líquida e a ela se superpõe. Uma profusão de imagens vem à tona. Imagens sempre novas que jamais irão se repetir, mas que possuem no poder de dissolução das águas, a sua matriz comum.
Com suas casas-navio e suas ruas-correnteza, a cidade parece, agora, estar à deriva: prédios se dissolvem em brumas; telhados escorrem de improváveis cachoeiras, em quedas d’água de esguichos mirabolantes; os bueiros transbordam em furiosos chafarizes improvisados; iluminado como um transatlântico, o Teatro da Paz lidera, vagaroso, aquela caótica procissão fluvial; as torres da Sé balançam, repicando o bronze amolecido dos sinos; o Mercado do Peixe baila, esguio e destemido, ao som dos relâmpagos; o casario encolhe e se agiganta, numa fantasmagoria de sanfonas emudecidas…
Já não se vê os urubus do Ver-o-Peso, nem se escuta os pássaros, que são muitos. Estão todos escondidos, desde os primeiros pingos, nos buracos secretos das copas das árvores. Quede a algazarra canora dos periquitos da velha samaumeira de Nazaré? Só depois que passar a chuva e o céu boiar outra vez.

5- A paisagem renascente

Gurijuba (foto: Dirceu Maués)

“A água anônima sabe todos os segredos.”
Gaston Bachelard
in: A água e os sonhos

Depressa o viajante entendeu que para participar do espetáculo cotidiano da metamorfose aquática de Belém é necessário se deixar, também, dissolver na paisagem que o envolve. A astúcia macia e feminina dos fluidos exige entrega incondicional. A água que molha e refresca a sua pele também penetra na intimidade do seu ser. Assim, como cúmplice e amante, o viajante entrega-se à sensualidade primitiva da água pura.
Murad, ao estudar o potencial das “imagens imaginais” da nossa experiência de contemplação da paisagem-mundo, diz:

“O dento e fora trocam de lugar, existe um vai e vem em constante mutação e troca imagética (…) Neste momento não se trata de ver o exterior, mas sim de ver em profundidade pelo esvaziamento de toda atmosfera concreta (…) contemplamos a paisagem que nos contempla e de um só golpe estamos contidos na imensidão desta imagem”.

Mergulhar na profundidade sempre nova da paisagem equivale a se deixar levar pelo fluxo que a tudo arrasta, passando a fazer parte dele. Materialidade e imaginação, simultaneamente imbricadas e fluidificadas, instituem uma zona de transição dialética entre a matéria do devaneio e o devaneio da matéria .
São sonhos que têm como causa a matéria líquida: “(…) um encantamento não pelas imagens, mas pelas substâncias”. Para Bachelard, a valorização da matéria pelas forças imaginantes, para além do impulso de novidade, age, igualmente, no sentido do aprofundamento: “(…) escavam o fundo do ser; querem encontrar no ser, ao mesmo tempo, o primitivo e o eterno”.
O devaneio da água nos confronta com a matéria primordial, a substância das substâncias, reavivando e atualizando no ser velhas formas mitológicas . Assim, tal como nos propõe Eliade, há que se considerar com atenção o simbolismo religioso das águas míticas:

“A imersão na água simboliza o regresso ao pré-formal, a regeneração total, um novo nascimento, porque uma imersão equivale a uma dissolução das formas, a uma reintegração no modo indiferenciado da preexistência; e a emersão repete o gesto cosmogônico da manifestação formal”.

A dissolução da paisagem na água desmascara a ilusão da permanência das formas. A rigidez aparente dos fixos sucumbe diante da potência transformadora das águas, associada ao “estado fluídico do psiquismo imaginante”. Como o rio de Heráclito, a cidade é, ela própria (e desde sempre), fluxo constante.
Tão logo encerrado o temporal, a cidade emerge renovada. Está tudo no mesmo lugar, mas a cidade já é outra. A cada chuva que passa, Belém se desfaz e se refaz. De aguaceiro em aguaceiro a cidade ressurge com o corpo e a alma lavados. Purificada de seus pecados, redimida de suas mazelas. Pronta para recomeçar tudo de novo, como se acabada de nascer:

“Desintegrando toda a forma e abolindo toda a história, as águas possuem esta virtude de purificação, de regeneração e de renascimento, porque o que é mergulhado nela ‘morre’ e, erguendo-se das águas, é semelhante a uma criança sem pecados e sem ‘história’, capaz de receber uma nova revelação e de começar uma nova vida (…)”.

A repetição ritual do batismo diluviano nos confronta, diariamente, com uma paisagem renascente, ao mesmo tempo em que a inscreve no ciclo dos processos de longa duração. A ruptura instaurada pelo tempo mítico da chuva pressupõe, como pano-de-fundo, a existência da temporalidade profana. Ao irromper no cotidiano vivido, o tempo sagrado anula momentaneamente a temporalidade profana, para em seguida recompô-la e (re)atualizá-la.
A chuva vem e vai, mas a paisagem de Belém não seca nunca. A água está sempre em todo lado, encima, embaixo, dentro e fora. Com efeito, respirar Belém é hidratar o corpo e o espírito. Por isso, talvez, Belém seja tão maleável, tão suscetível às deformações, às modelagens incessantes da imaginação.
Pouco a pouco o viajante vai se desfazendo dos seus preconceitos, abandonando suas certezas. Já não se interessa pelas distinções absolutas, nem pela nitidez aparente dos contornos. Entre o ser e o não-ser, entre o possível e o impossível, entre o atual e o virtual, o viajante descobre o caminho do vir-a-ser.
Familiarizado com os caprichos da paisagem mutante que o envolve e tornado já parte do movimento que o arrasta, o viajante experimenta a sensação vertiginosa de viver em dois mundos simultâneos. Trata-se, a rigor, da transição entre o que já foi e o que ainda não é. O foco de sua atenção se volta, então, para esse movimento que, englobando os fixos e os fluxos, se encarrega de reinventar (e produzir) permanentemente o lugar.
Por fim, no verso do mapa que já se tornara para ele dispensável, o viajante anota a seguinte observação: entre a pedra dura e a água mole (dois estados igualmente provisórios da matéria) assiste-se ao movimento (este sim duradouro e perene) de constituição daquilo que chamamos paisagem renascente de Belém.

(DUARTE, C. “Belém, cidade das águas grandes”, in: Rio e paisagens urbanas em cidades brasileiras. Lucia Maria Sá Antunes Costa (org.). Rio de Janeiro: Viana&Mosley; Ed. PROURB, 2006.)

Agradecimentos especiais ao premiado fotógrafo paraense Dirceu Maués, que gentilmente cedeu as imagens que ilustram este trabalho.